Estar aberto

Eu disse que iria voltar. Acho que já não escrevia mesmo antes da pandemia começar. Não sei, sou meio esquecido. Algumas pessoas me zoam por isso e eu não ligo, eu gosto de ser assim. Acumular muita coisa na cabeça nunca foi o meu forte. O bom é que as coisas ruins se vão junto, dando espaço às coisas boas.

E por falar em coisas boas, talvez o que eu  tenha percebido de bom em mim nesses últimos tempos é o quanto eu sou aberto para as pessoas, as relações, as amizades. E como é bom isso!

Existem vários aprendizados embutidos nesse processo. A gente nem percebe, mas depois que as relações vêm e vão, sempre fica alguma coisa legal pra levar pro resto da vida. Às vezes o aprendizado é um pouco árduo no começo, mas depois de um tempo em que se olha pra trás, eu acabo pensando algo do tipo “aquela pessoa serviu pra eu aprender isso”.

Interessante, né, esse conceito de servir. Todo mundo serve pra todo mundo e nem todo mundo se dá conta. Às vezes o que acontece é que você quer servir de um jeito ou quer que outro te sirva do jeito que você acha que deve. Aí dá ruim! Acho que o mais importante é deixar fluir, e nesse fluir detectar as percepções daquilo que a experiência pode te servir. Isso entra em todos os níveis de relação. Coleguismo, amizade, crush, namoro sério, noivado, casamento… Tudo tem uma relação de servidão. O que talvez diferencie seja o tempo de dedicação e durabilidade de cada relação.

Da hora!

Fora as pessoas, sinto que eu tenho uma relação interessante com o sol. Aliás, foi ele que me inspirou a escrever hoje. Ele vive me ensinando algo, esse danado!

“Mas quantos dão essa atenção, no dia a dia, na tensão?”

Gil Sant’Anna

Teia

Do extremo ao outro existe um ponto central que podemos chamar de “meio-termo”. Mas o que é o meio-termo ou o caminho do meio, ou ponto de equilíbrio?

Talvez nada mais do que o consenso entre dois lados, geralmente um lado bom e outro ruim, ou alto e baixo, leste-oeste, norte-sul, sei lá. O importante é que quanto mais próximo de um, mais distante do outro.

E aí tem dias que você está mais no norte, ou mais no sul. Tem dias que você bate a pontinha do dedinho do pé esquerdo e se apoia mais no pé direito. Tem dias que o topete do cabelo aponta mais pra cima, mas tem dias que a franja cai pra baixo e não há gel que faça ela subir.

Tem dia que a família por parte de pai fala mais que papagaio no grupo do zap, mas tem dia que a família da mãe não pára de te mandar meme. E assim seguimos a vida, acumulando louças até entupir o ralo da pia, ou lavando em seguida cada copo de água tomado, só pra não deixar o escorredor cheio.

As ondas do mar ora estão extremamente raivosas, ora calmas como piscinas. E depois de tanto observar e vivenciar tudo isso, chega uma hora, um dia, um momento que finalmente chega pra gente.

O momento que entendemos o caminho do meio e estarmos plenos e convictos quando encontramos ele. Mas uma coisa ainda não avisaram.

Que o seu meio pode ser o extremo de alguém.

Que saco!

“É só ilusão”

Gil Sant’Anna

Eu, o mar e o violão

Queria dizer a todos vocês que eu vou morrer na praia. Pois é, isso mesmo. Eu vou morrer na praia!

Estou aproveitando a quarentena para fazer alguns cursos e workshops sobre música, mercado musical, marketing musical, e me deixar atualizado. Veja, não quero que em momento nenhum esse texto seja visto como uma reclamação. Ao contrário, é apenas uma reflexão sobre o que consumimos musicalmente. Penso que, se na música é assim, então fico imaginando as outras artes, se é que são consumidas, como deve ser?

Eu estava assistindo a uma Live de uma profissional da área de composição, dona de uma editora que promove cursos sobre como viver da música através de composições autorais. Uma mulher muito boa por sinal, super consciente do cenário. Tão consciente que me fez vir aqui expor essa experiência que tive.

Durante a sua Live do Instagram ela chamou 3 pessoas para interagir. Eram pessoas com mais de 50 anos que ainda tinham o sonho de viver de suas composições, vendê-las a artistas de renome e tal. Ao entrevistá-las, ela deixava as pessoas exporem seus gostos musicais. Um gostava da MPB, o outro me lembro de falar de Leandro e Leonardo, e o outro era mais eclético, dizia gostar de música boa, independente de qual fosse o ritmo.

Pois bem, todos tinham sua referência de pessoas com seus 50 anos, e obviamente compunham com o conteúdo que carregaram em toda sua vida até então.

Foi quando a expositora falou, enfim, sobre o mercado. E aquilo me assustou bastante. No conceito trazido por ela, através de pesquisas, o público do Spotify fica em torno de pessoas entre 15 a 35 anos basicamente. Então, segundo seus métodos, seria interessante que os compositores focassem nas Playlists que o próprio Spotify promove de acordo com as músicas mais ouvidas pelo público em geral.

Então, durante a live ela foi mostrando as playlists da rede de streeming e as 10 músicas mais ouvidas. Foi então que eu vi nomes de músicas como “Vai Rabetão”, “Cobra Venenosa”, “Pé na Porta”, “Senta com amor” e por aí vai. Eu não conheço nenhuma delas, confesso, mas o que me chamou atenção foi que ao lado de algumas músicas, havia a classificação “EXPLICIT”, ou seja, muitas das músicas mais ouvidas tem conteúdo explícito.

Agora vem a visão mercadológica.

Segundo a coach, o motivo pelo qual os compositores de 50 anos não estarem conseguindo viver de suas próprias composições é o fato de que, eles não estão escrevendo para quem realmente ouve as plataformas digitais, ou melhor, a audiência. Então é preciso mudar a linguagem, a forma de escrita, a levada da música de acordo com o público que vai ouvir, e para isso, é preciso mudar a “chavinha de julgamento” sobre o que eles consideram boa música ou não. Pois o mercado não quer saber se a música é boa ou não, ele apenas vende através de mecanismos que detectam o que está sendo mais ouvido pelo público entre 15 a 35 anos.

Ou seja, FODA-SE a referência musical que você aprendeu a ouvir com seus pais, avós e os gostos que adquiriu durante os seus 50 anos. O grande lance é você se adequar ao mercado, para começar a conseguir vender a sua própria música. Não importa se a mensagem é boa, ou ruim, o que importa é você se adequar para vender o seu peixe e ganhar dinheiro com isso.

Então seguindo a minha conclusão lá em cima do texto, posso dizer que, com certeza, eu vou morrer na praia, sozinho.

Eu, o mar, e o meu violão.

“Nova cara é ser feliz”

Gil Sant’Anna

Medida de relaxamento

De forma genérica, homens e mulheres lutam para serem bons pais e boas mães, para terem sucesso na vida, para acumular renda e poder ter uma velhice confortável financeiramente.

Cantores, como eu, buscam incessantemente o sucesso, a música perfeita, o hit que vai emplacar pela primeira vez o seu trabalho, ou mesmo continuar a mantê-lo no topo dos mais ouvidos do mundo.

Formadores de opinião ou influenciadores buscam likes e seguidores obsessivamente, atropelando com seus posts incansáveis todas as redes que o detém, vendendo cursos on-line com “x” passos para alcançar o sucesso que eles têm. Viajam para lugares incríveis em busca da melhor foto, o melhor ângulo, o melhor tratamento.

Empresas procuram angariar todos os clientes possíveis, entrando numa disputa acirrada com seus concorrentes e promovendo seus produtos utilizando referências artísticas para comprovar a sua eficácia.

E posso citar aqui um zilhão de exemplos.

O breque aconteceu e tudo parou!

Tem gente sofrendo porque precisa produzir, precisa se sentir ativo, precisa concorrer, disputar, continuar a ser o melhor em tudo, o primeiro, estar no pódio. Tem gente sofrendo porque precisa chegar no final da vida e dizer pra si mesma que poderia ter aproveitado mais os seus filhos, poderia ter lido mais livros, tomado mais café com seus avós, dado mais atenção ao seus cônjuges, brincado mais com o seu cachorro, conversado mais com seus amigos, aproveitado mais o sol nas férias.

Tem gente reclamando agora porque quer reclamar só depois.

“É só ilusão”

Gil Sant’Anna

Mood

Existe, acima de tudo, uma oportunidade única de evolução coletiva acontecendo nesse momento com todos os que vão e com todos os que ficam. Só isso já é motivo o bastante para tirar o mínimo de sorriso de dentro de sua alma. É possível escolher ficar na energia da inconformidade, ou aceitar por mais dolorido que seja, as novas condições apresentadas pelo universo e simplesmente agradecer.

A evolução está em níveis inimagináveis de consciência humana, e chega pra nós como um pequeno fragmento singelo e simples, que é apenas o que a nossa leitura limitada de um ser muito inferior e primitivo enxerga.

E isso nada tem a ver com religião, política ou qualquer outra doutrina que possa ser mencionada. Isso tem a ver com a ciência que ainda se encontra embrionária diante de tantas possibilidades infinitas de estudo do ser humano e sua relação com a natureza cósmica.

Enquanto isso, do outro lado de nossa galáxia, outras formas de vida observam o nosso comportamento, e através da energia que emanamos em conjunto, se aproximam ou se afastam de acordo com a compatibilidade material de cada pensamento humano.

“Cause amor”

Gil Sant’Anna

E daí?

E daí?

Não sou eu que estou na fila do SUS.

E daí?

Se eu ou algum familiar meu morrer, eu já tenho jazigo reservado e não precisarei ser enterrado e empilhado junto com outros caixões de gente desconhecida.

E daí?

Caso eu venha pegar essa gripezinha eu já terei leito reservado em qualquer UTI dos melhores hospitais particulares do Brasil e do mundo.

E daí?

Eu já fiz a minha parte liberando 600 reais para cada um, o que é um valor bem alto!

E daí?

Eu não faço parte do grupo de risco mesmo.

E daí?

E daí?

E daí?

Eu não faço parte mesmo dessa realidade que estão pintando por aí!

“Não vê que não vale a pena voltar sempre a mesma cena?”

Gil Sant’Anna

Mingau

Banana, leite de soja, Nescau, aveia. Eu gosto de amassar a banana no prato e fazer essa mistura virar um mingau. Aí vou até a sala comer tomando o sol da manhã.

Durante esse ritual vou comendo, pensando na vida, nos dias que se passaram, no futuro próximo, nos meus desejos. Vou me inspirando. Hoje lembrei que é dia do meu quarto show on-line. Quem diria?

Em tempos de pandemia é preciso se reinventar. Eu ainda não sei como devo fazer para continuar tocando e recebendo o meu cachê. Acho que muitos não sabem também. Um dos shows que já fiz, eu pedi um “cachê solidário”, pra quem quiser contribuir com qualquer quantia, que realizasse o depósito em conta.

Ganhei 30 reais.

E não foi uma live de 15 min ou meia hora. Foi um show de 2 h igual o que eu faço nos bares, com direito a uma leve rouquidão pós apresentação. Normal!

Me lembrei agora do começo de carreira. Quantas vezes já toquei por menos que isso. Muitas e muitas vezes de graça, vendo o contratante ganhar em cima da minha busca por espaço. Hoje o contratante está fechado, quebrando, falindo, e eu voltei a fazer shows de graça, mas de dentro do meu quarto. Que inversão de valores! Aliás o que tem realmente valor nessa vida?

Quantos conceitos podem estar sendo quebrados nesse momento de paralisação mundial? Verbas altíssimas sendo transferidas para realidades altamente pobres. Por que isso não foi feito antes? Por que tantas coisas não foram feitas antes?

Mesmo assim, o número de pessoas voltando a sair nas ruas já está aumentando. Os esforços do Ministério da Saúde e as orientações dadas não estão fazendo efeito. Enquanto eu estou aqui procurando não parar de tocar, mesmo que de graça para as pessoas poderem ouvir uma mensagem e ter um momento de descontração, tem gente preocupada em como dar uma escapada no feriado, e em consumir ovos de Páscoa!

Algumas coisas me cansam. Tenho receio de que quando tudo acabar, de nada tenha adiantado. Mas eu prefiro continuar acreditando que o mundo está realmente mudando, aos poucos que seja, mas se renovando a cada dia, para que o mingau dessa manhã possa fazer algum sentido pra mim.

Feliz verdadeira Páscoa!

Gil Sant’Anna

23:35 h

Já havia me deitado quando minha mãe fez uma rápida conferência de vídeo, meio que um “boa noite” à distância. Mas resolvi levantar de novo, pois a última foto que fiz antes de dormir foi das estrelas, e não ficou boa. Fiquei com preguiça de usar a Nikon, e foi pelo celular mesmo.

Lá fora no quintal o clima estava mais fresco, a noite estava gostosa e acho que foi por isso que eu voltei. Já que a foto das estrelas não ficou boa, resolvi tirar a da cidade. A vista do home studio é boa pra isso. De lá que eu coleciono entardecer. Tem vários no meu insta (@santannagil), um mais lindo que o outro.

Deitei de novo e agora estou aqui pensando em como a rotina se transformou da noite pro dia. Eu que sempre fui meio pacato, sempre tive o desejo de um dia poder morar no litoral, ver a vida passar mais devagar, sem a pressa dos grandes centros urbanos. Agora me deparo com o centro urbano bem pacato. Quando abri a janela do home, silêncio.

A periferia estava em silêncio. Ao fundo alguns cachorros de rua latiam, mas pela distância, era bem irrelevante. E então me pergunto, nos tempos atuais, o que é realmente relevante pra nós?

Talvez a resposta esteja mesmo no silêncio.

“Silenciou o vôo cântico da pétala paz”

Gil Sant’Anna

Sextou (em casa)

Pode acreditar, muita gente que você não sabe nem o nome está esperando ansiosamente por esse dia pra dizer: “Sextou”!

Hoje (27/03/2020), completamos praticamente 4 meses da descoberta de um vírus que parou o mundo todo, e até o presente momento não se descobriu a cura, a não ser a medida mundial de ficarmos em isolamento em nossas casas para que evitássemos que ele se espalhasse e contaminasse, mais rápido, todos os seres humanos do planeta. Parece até coisa de filme, mas não passa de mais uma consequência da relação homem/natureza que colocaremos em nosso currículo de predador planetário.

Mas o que quero refletir hoje é sobre o “sextou”. Foi minha melhor amiga que me inspirou a escrever esse texto, pois assim que eu perguntei a ela, se ela estava bem, a resposta alegre dela foi justamente essa.

“SEXTOU!”

Enquanto estamos confinados a ficar em nossas casas, muitas vezes ociosos, procurando com o que se ocupar, pessoas como ela, estão realmente ocupadas e sustentando as bases da estrutura econômica em diversas áreas. Entregadores de pizza, lixeiros, profissionais da saúde, professores e uma série de pessoas em profissões que muitas vezes não demonstramos o menor valor, estão fazendo a diferença em tempos de caos mundial. Enquanto muitos de nós estamos em casa, trabalhando home office, ou apenas aguardando a possibilidade de poder voltar aos nossos trabalhos, esse profissionais estão arriscando suas vidas e esperando ansiosamente para o final de seu expediente na sexta, pra poder enfim, ficar protegido por pelo menos 2 dias em suas casas e voltar a sua dura rotina na semana seguinte.

Então me pego pensando:

Quantas vezes já postamos em nossas redes sociais o famoso “sextou” como uma esperança de nos livrarmos do estresse diário de nossos empregos, trabalhos e podermos finalmente descansar em casa, ou até mesmo sair ao encontro de pessoas queridas no pós trabalho?

Pois é, hoje o sextou vale o triplo para aqueles que estão arriscando suas vidas enquanto estamos protegidos em nossas casas. E detalhe, eles não poderão nem sequer fazer um happy hour depois do expediente!

Será que o nosso “sextou” vai mudar de valor quando tudo acabar?

“Enquanto houver amor, haverá de ser feliz”

Gil Sant’Anna